
A relação entre deficientes visuais e cães-guia é antiga. A primeira tentativa sistemática de treinamento teria ocorrido no fim do século XVIII, no hospital parisiense Les Quinze-Vingts. Durante a Primeira Guerra Mundial, cães começaram a ser treinados na Alemanha para guiar soldados que ficaram cegos. De lá para cá, muitas escolas foram abertas pelo mundo. As mais tradicionais selecionam geneticamente matrizes de labrador, golden retriever e pastor-alemão. Dessas raças, ou do cruzamento entre elas, saem os animais mais adequados ao trabalho de guia.
Coisas simples para quem enxerga, como ir à padaria ou dar uma volta sozinho no quarteirão, são importantes para um deficiente visual. No caso de Thays, foi o cão quem lhe deu segurança para deixar a casa dos pais e ir morar sozinha. E se encher de coragem para largar a estabilidade do emprego no Ministério Público e se dedicar a outras áreas do Direito. A relação com Boris motivou Thays a processar o Metrô de São Paulo, que proibiu o cão de guiá-la dentro da área da empresa. E a batalhar pela aprovação de duas leis – uma estadual e outra federal – que permitiram o acesso de cães-guia a locais públicos.
No ano passado, Thays notou que chegara a hora de aposentar Boris. Ele já não tinha a energia de antes. Depois de uma longa caminhada pela Avenida Paulista, Boris se jogou no chão para descansar. Em outra ocasião, Thays bateu o rosto numa escada por desatenção dele. “Foi uma decisão muito dolorosa”, afirma Thays. “Quando Diesel (o guia substituto) chegou, Boris começou a me ignorar e ficou meio deprimido. Eu pegava a coleira para sair, os dois vinham querendo colocá-la.” Há duas semanas, Boris, de 10 anos, se mudou para a casa de uma amiga de Thays. Parece satisfeito.